Aspectos da atual contra-ofensiva imperialista

por Ronaldo Carmona*

O texto a seguir foi apresentado no 12º Seminário "Os Partidos e uma nova sociedade", realizado de 13 a 15 de março último e organizado anualmente pelo Partido do Trabalho do México, realizado na Cidade do México. O evento contou com a participação de dezenas de organizações políticas de esquerda da América Latina e de todo o mundo. O texto refere-se ao tema do Seminário denominado "Neocolonialismo e contra-ofensiva do imperialismo diante dos avanços da esquerda. Processos alternativos de integração".

A situação latino-americana e caribenha destes primeiros anos do século 21 é marcada por uma contradição: de um lado, após uma forte luta de resistência de nossos povos contra o neoliberalismo na década de 1990, temos conseguido gradativamente derrotar as políticas neoliberais "duras" que marcaram todo um período, e cuja aplicação gerou um conjunto de seqüelas em nossos países. Em especial, em nossa América Latina, em vários países, conquistou-se a vitórias eleitorais com a ascensão a governos nacionais de forças democráticas, progressistas, antiimperialistas e mesmo revolucionárias.

Por outro lado, a tendência dominante na América Latina, que busca distintos graus de ruptura com o domínio imperialista e com o neoliberalismo hegemônico no mundo, contrasta com o que se denominou neste Seminário como contra-ofensiva do imperialismo norte-americano.

A agressão da Colômbia – país que se configura como "Israel" da América Latina, como bem disse o presidente venezuelano Hugo Chavez – a um acampamento da insurgência colombiana localizado em território equatoriano, ocorrido há poucos dias, é o sintoma mais recente dessa contra-ofensiva do imperialismo, realizada a partir da mobilização de seu lacaio maior na América do Sul, o governo de Álvaro Uribe.

Contra-ofensiva que também se havia manifestado no revés, em dezembro passado, pela Revolução Bolivariana na sua intenção de avançar uma casa mais em seu proclamado objetivo de construir o que denominam Socialismo do século 21.

Antes, sinais dessa contra-ofensiva já havia se manifestado nas derrotas eleitorais de forças progressistas no Peru e na fraude que impediu a vitória de Lopes Obrador no México.

Também mais ao Sul da América Latina, essa contra-ofensiva se expressa na forte campanha de desestabilização do Governo do presidente Lula por parte da poderosa burguesia brasileira e seu enorme aparato dos meios de comunicação de massa, assim como a campanha para implodir o Mercosul – experiência mais desenvolvida de integração em curso na América Latina – e nas ações para bloquear o desenvolvimento da União Sul-americana de Nações (Unasul).

No caso da América Latina e do Caribe, estes movimentos são expressão de uma contra-ofensiva do imperialismo norte-americano. Obviamente, se trata de uma contra-ofensiva precisamente porque há uma ofensiva das forças democráticas, progressistas e revolucionárias em nossa região – ainda que estas sejam condicionadas pela todavia plena hegemonia do neoliberalismo como expressão do capitalismo de nossos dias.

Entretanto, no mundo de hoje há numerosos sinais que apontam que a hegemonia unipolar do império estadunidense e das idéias neoliberais são cada vez mais contestada por povos, nações e blocos de nações.

As baixas diárias que sofrem as tropas do imperialismo norte-americano no Iraque e no Afeganistão, assim como o crescente isolamento dos Estados Unidos e da chamada Doutrina Bush são expressão da derrota de sua estratégia de guerras, e sintoma deste mundo contraditório e em transição que vivemos.

Os Estados Unidos, nesse melancólico encerramento do Governo Bush, não atingiram a anunciada reconfiguração do Oriente Médio, depois de sete anos de haver proclamado este objetivo. Não há outra palavra para denominar este fato, se não como uma retumbante derrota de Bush e dos falcões ultraconservadores que o cercam.

A crescente contestação da hegemonia imperialista e do mundo unipolar também ocorre por meio de alianças de nações que buscam ampliar a margem contra a hegemonia neoliberal e caminhar por vias próprias, soberanas e voltadas para o desenvolvimento econômico e social. Nos referimos, por exemplo, a aliança entre a China socialista – que rapidamente ascende como um fator novo e progressista no mundo – e a Rússia, no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai para impedir a expansão da influência estadunidense na Ásia Central. Nos referimos também ao ainda incipiente, mas promissor mecanismo IBAS, fórum que reúne Índia, Brasil e África do Sul, assim como as Cúpulas de Chefes de Estado entre a América do Sul e os Paises Árabes, entre a América do Sul e a África, e a anunciada reunião entre a América do Sul e a Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean). Ou ainda, na revitalização do Movimento dos Países não Alinhados e do Grupo dos 77 e China.

No âmbito da Organização Mundial do Comércio, com o aparecimento do G20 e de outras formações de países em desenvolvimento, que tem conseguido frear uma nova onda de liberalização comercial unilateral dos paises em desenvolvimento no âmbito das negociações da Rodada de Doha da OMC – como se deu, por exemplo, na Rodada Uruguai, finalizada no auge da ofensiva neoliberal em 1995 – enquanto os países ricos fecham e protegem seus mercados, com um descabido e injusto protecionismo, sobretudo em agricultura.

O desgaste das todavia hegemônicas teses neoliberais são notórias. A perda de prestígio do dólar norte-americano, o surgimento de novas articulações financeiras como o Banco do Sul e o Fundo Monetário Asiático, e em especial, um retorno do protagonismo do Estado Nacional, sobretudo no Sul do mundo, são sintomas de uma crescente contestação das teses neoliberais. Hoje, diante da crise financeira nos Estados Unidos, resultantes da explosão dos títulos podres do marcado imobiliário, chega-se a falar de um relativo descolamento de muitos países em desenvolvimento desta crise, devido a uma crescente autonomia e posição soberana destes países – advindas, em boa medida, de modificações estruturais ocorridas nos termos de intercâmbios internacional, em particular pela emergência da China e de seu extenso mercado interno.

Por fim, gostaríamos de nos referir a vários sintomas novos na América Latina e Caribe que põem nossa região como um dos mais importantes espaços de resistência no mundo de hoje. Aqui é uma região do mundo na qual, apenas uma década e meia após o fim da União Soviética, volta-se se proclamar objetivos socialistas por parte de Governos Nacionais.

O enorme isolamento da Colômbia e dos Estados Unidos na recente agressão ao Equador demonstra uma realidade nova na América latina, que absolutamente não é a mesma realizada dos anos 1990.

A presença de partidos membros do Fórum de São Paulo em governos nacionais de países como Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Equador e Venezuela, ou seja, em sete dos dez países da América do Sul dá uma exata dimensão desse fato - cifra que pode aumentar para oito em dez, em abril próximo, caso se confirmem as pesquisas que dão vitória a Fernando Lugo no Paraguai – e ressalvado aqui, no caso chileno, a despeito da presidente ser do PS, todavia se observa uma hegemonia das teses neoliberais no plano da economia e conservadoras no plano da política.

Enfim, muito distinta a realidade de apenas dez anos atrás, quando na lista de governantes latino-americanos figuravam figuras como Fernando Henrique Cardoso no Brasil, Julio Sanguinetti, no Uruguai, Carlos Menem na Argentina, Juan Carlos Wasmosy no Paraguai, Hugo Banzer na Bolívia, Eduardo Frei no Chile e Rafael Caldera na Venezuela, entre outros (1). Como disseram os presidentes sul-americanos no recente ato de assinatura da ata de constituição do Banco do Sur, hoje nossos presidentes têm a cara de seus povos.

É certo que não é igual as política que desenvolvem, e tampouco são iguais os niveles de enfrentamento do neoliberalismo ou os objetivos estratégicos por parte das forças a frente desses governos. Mas pensar que os governos resultantes da atual onda progressistas da América Latina tivessem o mesmo tom seria algo antidialético, produto de uma visão de mundo de outro período histórico, estereotipada, de tipo eurocentrico, negadora das especificidades de nossas distintas formações econômicas e sociais, assim como da correlação de forças inerentes a cada país. O sentido progressista e de luta pelo socialismo nas condições do século 21 não são as mesmas do período histórico anterior. Tampouco seria correto estabelecer "modelos" ou receitas a partir de visões idealizadas de mundo. A nova luta pelo socialismo, nas atuais condições do mundo, mais do que nunca, exigem uma profunda relação com o pensamento nacional avançado de nossa época (2).

O fato é que se abrem condições para avançar na integração sul e latino-americana com um sentido avançado, progressista, desenvolvimentista. No plano internacional, abrem-se condições para uma nova aliança dos paises em desenvolvimento. Esta é uma grande novidade que nossa América Latina apresenta aos povos do mundo e a luta para superar a hegemonia imperialista e o mundo unipolar, pela configuração de uma nova ordem internacional distinta da atual, favorável aos povos e ao mundo em desenvolvimento.

Notas

(1) Conforme apresentado em "Mudança de época na América do Sul", publicado nesta coluna, em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=30867

(2) O argumento deste parágrafo é mais bem desenvolvido em dois textos publicados em 2007 na Revista Princípios. Ver "Ciclo progressista e luta pelo Socialismo", no número 88, e "Características da nova luta pelo socialismo na América Latina", no número 92.


*Ronaldo Carmona, da Comissão de Relações Internacionais do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)