Brasil - Libertar a terra para salvar a vida

Ivo Poletto *

Adital

Texto elaborado coletivamente por animadores de Pastorais Sociais, sistematizado e apresentado por Ivo Poletto à Assembléia Geral da CNBB no dia 5 de abril de 2008.
"Levanta-te! Vai a Nínive, aquela grande cidade, e anuncia o que vou te dizer". Jonas chegou, andou um dia inteiro, dizendo assim: "dentro de quarenta dias Nínive será destruída!" Os ninivitas passaram a crer em Deus e marcaram um dia de penitência, vestindo-se todos de saco, do maior ao menor. O fato chegou ao conhecimento do rei. Ele também vestiu um pano de saco e sentou-se em cinzas. Mandou publicar este decreto aos ninivitas: "as pessoas, os animais, o gado e as ovelhas não poderão provar nada, ficando sem pastar e sem beber água... Cada um deverá voltar atrás de seus caminhos perversos e deixar de praticar todo tipo de opressão. Quem sabe, assim, Deus volta atrás, tem compaixão... e nós deixamos de ser destruídos?" Deus viu o que eles fizeram... Compadecido, nada fez. (Jonas, 3,2,10)

Introdução

A profecia de Jonas em Nínive é uma parábola do tempo atual. Com uma diferença, até o momento: a profecia de hoje - a de que o aquecimento global do Planeta, provocado pelos seres humanos, está colocando em risco a vida na Terra - não está sendo levada a sério, não chegou a toda a população e, por isso, ela não foi animada a fazer penitência, não criou movimentos de mudança de seus caminhos perversos e das práticas de opressão, não chegou a ter forças para que os reis de hoje se sintam provocados a entrar em penitência e decretar políticas públicas que tornem universais os caminhos de mudança...

São visíveis os sinais que confirmam o consenso dos cientistas em relação ao "estado do planeta Terra", expresso nos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Ele realmente está em processo acelerado de aquecimento, e isso se deve à forma como os seres humanos se relacionaram e continuam relacionando-se com ele. É efeito especialmente da velocidade tomada pelo denominado "progresso econômico" nos últimos cinqüenta anos. É, por isso mesmo, responsabilidade maior dos povos e países que hegemonizaram esse tipo de progresso e que são, pela mesma razão, os maiores consumidores dos produtos e serviços desenvolvidos pelo uso intensivo da moderna tecnologia.

Já não há dúvidas, também, de que o modo de pensar e de agir baseados nas teorias liberais e ultraliberais, que sustentam e justificam ideologicamente o capitalismo, tem levado a humanidade a uma crise civilizacional. São necessárias e urgentes transformações na forma de organizar as relações econômicas, de modo especial as que estão ligadas à exploração de fontes fósseis de energia; mas, hoje, junto com elas, é urgente uma transformação no modo de a humanidade viver sua relação com a Terra, com os seres vivos e com os próprios seres humanos. Não serão suficientes, por isso, reformas superficiais.

Ao dizer que essas transformações são "urgentes", afirma-se que o "tempo corre contra a humanidade que vive na Terra". O consenso dos cientistas deixa claro que conseqüências do aquecimento já em curso são inevitáveis. Por mais rapidamente que sejam introduzidas mudanças no modo de consumir e de relacionar-se com a Terra, não há mais tempo para que ela processe as agressões de que tem sido vítima; haverá, por isso, mudanças climáticas sérias, bem como mudanças nas condições de vida no Planeta. Agora, a depender da profundidade e da rapidez das mudanças, os efeitos do aquecimento podem ser menores, sem deixar de serem graves.

Destacando o Brasil nesse processo de mudanças das condições de vida na Terra, é preciso ter presente que não passa de ilusão a idéia de que será um país privilegiado. Abençoado por Deus ele sempre foi, mas não por todos os seres humanos que nele viveram e vivem. Por isso, junto com mudanças que ocorrerão em todas as regiões, vale destacar o que acontecerá no Nordeste, no Centro-Oeste e no Norte do país. Aumentarão sensivelmente as já altas temperaturas dessas regiões. Haverá mudanças nos regimes das chuvas e, consequentemente, no nível geral das águas, com tempos mais longos de estiagens e períodos de chuvas intensas, com ocorrências mais comuns de secas e enchentes. Junto com isso, alastrar-se-á a desertificação dos solos. Na verdade, a pesquisa mais recente indica que 50% do solo do Nordeste já se encontram em processo avançado de desertificação. O Centro-Oeste, com a derrubada de 85% da cobertura vegetal legada aos seres humanos pela história da Terra, tem como certo o agravamento da desertificação nos próximos vinte anos. A Amazônia, que já sofre os efeitos da devastação de sua floresta, enfrentará novos desafios causados pelo fim das geleiras nos picos da Cordilheira do Andes e com a diminuição ou falta das águas que correm do Cerrado para o norte do país.

Diante de tantos sinais e tantos avisos, a Igreja dos seguidores de Jesus Cristo não pode ficar indiferente nem perder tempo. Ela foi desafiada por Jesus a ser especialista na leitura dos sinais dos tempos. Além disso, a não deixar de fazer, a partir da vivência da fé, tudo que fosse capaz em cada tempo e cada lugar, podendo até realizar ações "maiores" das que Jesus fez em seu tempo. (Cf. Jo 14,12) A hora da graça, o dia da salvação, o hoje que realiza e atualiza a missão assumida por Jesus, é esse tempo em que vivemos, no Brasil e na Terra. Se os desafios são grandes, grandes deve ser a disposição para agir, imensa a disponibilidade para acertar no discernimento do que se deve fazer.

Este texto, por isso, tem como objetivo apresentar à CNBB e, através dela, a toda a Igreja no Brasil, uma proposta de ação capaz de desencadear um processo de mobilização em favor de transformações estruturais e mudanças que precisam ser implementadas com urgência para enfrentar os efeitos do fenômeno do aquecimento global do Planeta Terra. Por isso, está divido em quatro partes: o aquecimento que ameaça a vida; fundamentos bíblico-teológicos do cuidado com a Criação; proposta de ação pastoral; conclusão: mudar o coração e animar a prática da cidadania.

2. O aquecimento que ameaça à vida

"Não será a mais forte de todas as espécies que sobreviverá, tampouco a mais inteligente, mas sim aquela mais adaptável à mudança". (Darwin)

A questão mais grave que a humanidade já enfrentou em sua história chama-se "aquecimento global". Embora repetida exaustivamente na mídia, a maioria das pessoas ainda não se deu conta da hecatombe que ela representa para todas as formas de vida, inclusive a humana. Portanto, é necessário urgentemente entender o que está em jogo e tomarmos atitudes pessoais e coletivas imediatas para tentar reverter, ou minimizar, a tragédia dantesca que a mão humana pode estar construindo.

O aquecimento se dá em função da concentração de gás carbônico - CO2 - na atmosfera da Terra. As principais causas da emissão desses gases é a queima de combustíveis fósseis e das florestas.

Não há mais dúvidas sobre o aquecimento global. A única dúvida que resta está no grau do aquecimento, com seus conseqüentes desdobramentos. Existem duas teorias, apresentadas a seguir.

1) Aquecimento progressivo

A teoria mais comum é que o aquecimento será gradativo, podendo subir de dois a sete graus progressivamente. Cada grau já traz desdobramentos praticamente imprevisíveis. O aquecimento trará o derretimento das geleiras, aumento do nível do mar, diminuição no volume de água doce disponível, alterações no regime das chuvas, imensas dificuldades para a agricultura, fenômenos extremos como furacões, chuvas torrenciais, evaporação das águas, estiagens prolongadas, deixando em seu rastro fome, sede, miséria e milhões e milhões de mortos. Calcula-se que cerca de 1 bilhão de pessoas terão que migrar das áreas litorâneas.

Países, cidades e ilhas próximas ao nível do mar vão desaparecer. Regiões brasileiras como a Amazônia tendem a se transformar numa savana e o semi-árido em um deserto. Será uma tragédia sem precedentes na história da humanidade. A Terra já enfrentou catástrofes semelhantes, como na era em que os dinossauros foram extintos, mas o ser humano ainda não estava aqui.

2) A teoria de Gaia

Essa teoria afirma que as mudanças serão mais rápidas e drásticas do que as previstas pela teoria do aquecimento progressivo. Foi o cientista inglês James Lovelock quem elaborou a teoria de Gaia - uma metáfora relacionada com a deusa grega da Terra, fecunda e vingativa. Para ele, nosso planeta comporta-se como um ser vivo, que auto-regula sua temperatura. Segundo sua análise, a Terra é um planeta já velho, doentio e febril. Comparada com uma pessoa que vive cem anos, a Terra já teria vivido oitenta. Portanto, lhe restariam uns vinte anos de vida, se comparada a uma pessoa comum, ou cerca de 150 milhões de anos em termos astronômicos. A partir daí será naturalmente um planeta morto como tantos outros.

Acontece que seu envelhecimento natural se agravou com a emissão de CO2 na atmosfera. Então Lovelock e sua equipe fizeram uma modelagem computadorizada da evolução da temperatura, simulando alguns cenários. A conclusão foi assombrosa. Hoje, a concentração de CO2 na atmosfera seria de 350 ppm (parte por milhão); continuando o ritmo atual de emissão, em quarenta anos atingirá 500 ppm. No computador, quando a concentração atingiu esse nível, aconteceu um fenômeno devastador: as algas marinhas morreram - elas que são as maiores seqüestradoras de carbono da Terra e produtoras de oxigênio -, deixando de absorver o gás e liberar oxigênio.

Então, os gráficos dos computadores enlouqueceram e a temperatura da Terra disparou em ordem geométrica, para níveis insuportáveis para a vida. O cientista viu-se diante de um planeta tórrido e desértico, com vida apenas onde hoje estão as regiões mais frias do planeta. Cerca de 4 bilhões de seres humanos morreriam. O Brasil, em todo seu território, seria absolutamente inabitável. Não seria o fim da vida em Gaia, mas o golpe mais dantesco já experimentado na história humana. A Terra poderia se recompor em mil anos, mas não se sabe o que realmente restaria da humanidade.

Lovelock observa que torce para que seus adversários na ciência estejam certos, que o aquecimento seja progressivo, mas observa que eles não estão levando em consideração a possível morte das algas.

A proposta de Lovelock é fazer agora, já, imediatamente, uma retirada estratégica. Para tal precisaríamos cultivar a "ecologia profunda", isto é, ir ao coração da grande ameaça que paira sobre todos, que torna tudo o mais irrelevante. Para ele só tem uma saída, isto é, parar imediatamente a emissão de gás carbônico na atmosfera. Para isso precisaríamos substituir imediatamente as fontes energéticas de origem fóssil por matrizes que não poluam. Aqui há uma opinião polêmica. Para ele, a única matriz disponível para suprir as necessidades humanas, que não emite CO2, é a atômica.

O Brasil é o quarto maior poluidor do planeta, não tanto pela queima de petróleo e combustíveis fósseis, mas pelas queimadas das florestas. Portanto, podemos contribuir com a humanidade evitando a queimada das florestas, da cana, dos campos. E diminuir a queima de fósseis também. O Brasil, que tem várias possibilidades de matrizes energéticas, que os países do Norte não têm, como a hídrica, a solar, a eólica (ventos) e a gerada a partir da biomassa, pode contribuir muito com o bem de nossa casa comum. Entretanto, o que fica claro é que existem saídas, desde que a humanidade decida salvar a Terra, e, por conseqüência, a si mesma. Do contrário, a hecatombe será inevitável.

O Universo visível tem cerca de 13,5 bilhões de anos. A Terra, o planeta em que habitamos, tem aproximadamente 4,5 bilhões de anos. Sua evolução, lenta, agasalha a vida há mais de 3,5 bilhões de anos. Através da evolução do planeta, a vida evoluiu de seres unicelulares à complexidade do cérebro humano. Para que o ser humano entrasse nessa história, foi necessário que a Terra se preparasse como o útero de uma mãe. Era preciso atingir o equilíbrio preciso, com a dosagem certa de oxigênio na atmosfera, entre 18% e 21%; porque, se fosse mais, qualquer fósforo acesso explodiria o planeta, e se fosse menos, morreríamos todos imediatamente por falta de oxigênio. O oxigênio que os animais respiram é liberado pelos vegetais. Eles são os únicos capazes de produzir seu próprio alimento através da fotossíntese, isto é, a capacidade de processar, por influência da luz solar, o dióxido de carbono, água e minerais em compostos orgânicos, produzindo oxigênio gasoso. A cadeia alimentar começa com eles. Porém, os vegetais ainda têm a função de captar o gás carbônico do ar (CO2), produzido pela respiração dos animais, inclusive a humana. Dessa forma, há uma troca permanente, isto é, os vegetais nos oferecem oxigênio e nós lhes oferecemos CO2, troca perfeita, que mantém o equilíbrio da vida. Portanto, comunidade dos seres vivos é absolutamente interdependente.

Na física e na química mais antiga nos ensinavam que havia o "reino animal", o "reino vegetal" e o "reino mineral". Os dois primeiros com vida, o segundo sem vida. Entretanto, as últimas descobertas da ciência nos dizem que na base de todos os seres, tanto vivos como não vivos, existe a mesma base material, os mesmos elementos que compõem todo o universo. Portanto, não há ruptura entre os vivos e os não vivos. A teoria de Gaia, de James Lovelock, nos diz ainda que nosso planeta se comporta como um ser vivo, onde as partes vivas dependem das não vivas. Para ele, o planeta tem capacidade de auto-regular-se; ele é que comanda os humanos, e não os humanos que o comandam. A evolução de Gaia, da qual todas as espécies dependem, seria mais importante que evolução das espécies, que é uma teoria de Darwin.

É do conhecimento científico que a vida começou nas águas e que a água é componente de cada ser vivo. Entretanto, segundo os padrões comuns de entendimento, a água não é viva. Até hoje a ciência não sabe dizer o que é a vida. Apenas consegue descrever os fenômenos vitais, como nascer, multiplicar-se, crescer, definhar, morrer. A água não nasce, não se multiplica, não cresce, não definha, não morre. O fenômeno humano da poluição pode matar mananciais de água, porém, uma vez evaporada pelo calor do sol, volta a ser a mesma água de sempre.

Para os cientistas, na evolução de Gaia, o ser humano chegou no último segundo do último minuto da uma hora de relógio. Comparando com a vida humana, o ser humano chegou como o último filho de uma velha senhora.

3. Fundamentos bíblico-teológicos do cuidado com a Criação

Viver neste tempo desafiador exige uma espiritualidade profunda, que renove as raízes divinas da humanidade. O cristianismo conta com um rico manancial em sua teologia bíblica, cosmológica e espiritual da Criação. Trata-se de uma revelação de sentido da história que perpassa toda a Bíblia. Parte do Jardin do Éden, no Gênesis, e projeta, no Apocalipse, para a Nova Jerusalém, a cidade aberta a todos os povos e em que não haverá choro nem necessidade. Jesus Cristo está no centro de uma história inspirado e atraída pelo Deus da Vida, a quem se ama amando as pessoas, começando pelas reduzidas à pobreza e à marginalização, um amor que vale a própria vida de quem ama.

Para as pessoas e comunidades das Igrejas cristãs, o cuidado com a Criação é parte importante de sua prática, de sua missão, de sua mensagem. Lembremos, aqui, apenas algumas referências que fundamentam essa responsabilidade.

Criação: Gen. 1, 1-31 - O ato criador é um ato de amor. Deus cria porque ama. Ainda mais, deu ao ser humano a capacidade de ser co-criador. Portanto, entre as criaturas, só o ser humano é capaz de amar e criar. A fidelidade entre os animais é instintiva, não fruto da capacidade de entender e amar. No ser humano a arte, a ciência, a cultura, o sexo, adquirem dimensões que revelam o sentido mais profundo da existência humana.

A página bíblica da criação revela esse transbordamento do amor de Deus, até chegar ao ser humano, feito à sua imagem e semelhança. Só por isso, cada ser humano, independente de sexo, cor, religião, carrega em si uma dignidade divina.

Mas todas as criaturas também, parafraseando João Paulo II, carregam em si as digitais do Criador. Deus cria, vê que é bom, vê que é muito bom.

Porém, é exatamente a criação divina ao alcance do ser humano que está sob risco de extinção, inclusive ele próprio, ou de uma hecatombe sem precedente na história humana sobre a face da Terra. Logo ele, o ser humano, que é a inteligência da Terra, a imagem e semelhança do Criador, coloca em risco a vida que está ao seu alcance, porque é o único capaz de destruir. O aquecimento global é fruto da ação humana. Não pode um cristão, um filho de Deus, ausentar-se da gravidade que a história humana impõe aos humanos nesse momento. Resta-nos pouco tempo. Para bilhões é agora, ou nunca mais.

Dilúvio: Gen. 6,5 - 9,17 - O Dilúvio tem referências em várias tradições religiosas. Na bíblica, o que chama a atenção é o cuidado do Criador para com todas as criaturas. O hagiógrafo fala que Deus, cansado das mazelas humanas, decidiu extinguir a humanidade. Porém, num último ato de nobreza divina, resolveu salvar um ser humano por ser bom. Ainda mais, exigiu que esse homem, chamado Noé, pusesse na Arca um casal de cada animal para garantir sua reprodução. Salva, assim, todas as criaturas e revela o carinho paternal que o Criador tem para com todas elas. O que mais chama a atenção, entretanto, é a aliança feita com os seres humanos e todas as criaturas da Terra após o dilúvio. "De minha parte, vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência, com todos os seres vivos que estão convosco, aves, animais domésticos e selvagens, enfim, com todos os animais da terra que convosco saíram da arca" (Gen. 9,9-1). Portanto, a aliança de Deus não é exclusividade dos seres humanos, embora esse tenha sido feito à sua imagem e semelhança. O fato de dispor da Terra e de seus bens, não dá ao ser humano o direito de destruir os demais seres vivos. Eles também carregam em si a digital do Criador e fazem parte de sua comunidade de aliança.

João 1,1-16 - O prólogo do Evangelho de João é uma das páginas mais belas da bíblia, porque é reflexão teológica e poesia ao mesmo tempo. "No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus. Ela existia, no princípio, junto de Deus. Tudo foi feito por meio dela, e sem ela nada foi feito de tudo que existe" (Jo, 1,1-3). Ora, João dá ao Cristo, a Palavra, uma dimensão criadora. A Palavra sempre existiu e "sem ela nada foi feito de tudo que existe". Mais uma vez a revelação bíblica considera a totalidade da criação, não apenas o ser humano. João dá a toda a criação uma dimensão crística. Evidentemente, dá ao ser humano um lugar especial, embora tantas vezes nefasto: "Nela estava a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram ofuscá-la"(Jo 1,4-5)

É evidente a intenção de João de vincular a pessoa de Jesus a toda criação. O próprio Jesus, ele mesmo embebido totalmente da missão, vai aconselhar a "olhar os lírios dos campos e as aves dos céus" (Mt 6,26-30). Portanto, nada está alheio ao ato criador que se renova na face da Terra ao longo de bilhões de anos.

Rom 6,18-25 - O destino de toda Criação foi retomada por Paulo em Romanos 8. Esse texto nos indica que a redenção de Jesus transcende o ser humano - quanto mais uma Igreja! - e se estende para todo universo criado. O resgate é de toda a criação que "geme em dores de parto" e "anseia pela redenção". O Gênesis nos diz que Deus criou e "viu que tudo era bom". Paulo nos diz que a criação é imperfeita, sujeita à corrupção e que anseia por sua remissão. Portanto, poderemos esperar por um Universo redimido, em sua plenitude, também com as vidas vegetais e animais que conhecemos. Deveremos ter um planeta Terra redimido, com suas espécies, inclusive as eliminadas pela evolução das espécies. Não é demais esperar por uma humanidade que conviva com dinossauros, onde lobos e cordeiros brinquem juntos, onde as crianças possam afagar os tigres.

Tudo é simbólico nessa reflexão, mas tudo é real. A vida deverá ser resgatada na sua plenitude, eternizada em sua plenitude. Afinal, não é da lógica do Criador destruir o que criou, mas elevar, transformar, plenificar. Não faz sentido com a natureza do próprio Criador, que Ele destrua a matéria, o Universo, os vegetais e animais que Ele criou e viu que "era muito bom". A própria revelação bíblica nos indica esse caminho de transfiguração, de eternalizacão de toda a matéria, animada e inanimada; afinal, hoje, com a teoria quântica, já se sabe que a base de toda criação é exatamente a mesma. Deveríamos acolher com muita humildade essas revelações dos sinais dos tempos e nos maravilhar com Deus na sua grandeza amorosa, magnânima, e não segundo as lentes mesquinhas de nossas disputas humanas e até inter-religiosas.

4. Proposta de ação pastoral

Trata-se, portanto, de ouvir os gritos da Terra. Mesmo em situação limite, continuam gritos nascidos de "dores de parto", como reflete o apóstolo Paulo. E ela está à espera da "gloriosa manifestação dos filhos e filhas de Deus" para ser libertada (Rom 8). Sua libertação tem tudo a ver com a história auto-libertadora dos próprios seres humanos. É dela que são feitos, e ela é seu lugar e seu ambiente de vida (Gen 1 e 2). Ela foi entregue aos cuidados dos seres "feitos à imagem e semelhança de Deus". Seu destino está, portanto, diretamente ligado ao modo de ser, de pensar e de agir das pessoas humanas.

Com absoluta certeza, Jesus, ao ver as multidões de hoje tão ou mais dispersas, sem pastor, está convocando sua Igreja a assumir as melhores formas de evangelização a partir das potencialidades presentes na realidade brasileira e mundial. Uma dessas potencialidades se faz presente na possibilidade de as pessoas exigirem democraticamente as mudanças necessárias para Libertar a Terra para Salvar a Vida. É por isso que, sem transformar-se em partido ou movimento social, a ação pastoral da Igreja Católica pode, através de um amplo processo de mobilização, contribuir para que a cidadania faça valer seu poder e responsabilidade histórica.

Proposta: desencadear um processo de construção de um consenso eclesial em torno da proposta de definir e assumir como uma prioridade transversal o enfrentamento dos efeitos do aquecimento do Planeta para Libertar a Terra e Salvar a Vida.

Não se trata de deixar de lado as prioridades vigentes. O que se propõe é que em todas elas, e dando-lhes um sentido comum voltado para a construção do Reino de Deus, seja assumida esta "prioridade transversal". Evidentemente, ela contará com ações necessárias para sua concretização, ações adequadas aos objetivos estabelecidos. Sua realização, contudo, será fruto da mobilização de todas as forças da eclesialidade da Igreja Católica e de toda sua capacidade de diálogo e atração de irmãos e irmãs de outras confissões religiosas e religiões, de todas as pessoas que têm sentimentos de humanidade. Dependerá, então, de quanto e como esta prioridade transversal impregnará e mobilizará as demais prioridades, seus programas, projetos, atividades, ações.
Como seu objetivo permanente é a mobilização das pessoas para enfrentar os efeitos do aquecimento do Planeta para Libertar a Terra para Salvar a Vida, ela necessitará de uma "metodologia de mobilização". Essa metodologia não busca a mobilização apenas no final do processo; ela deve estar presente desde o primeiro passo de sua implementação. Para que se perceba essa potencialidade, seguem alguns dos passos de mobilização que podem ser dados:

1) Construir um consenso na CNBB

2) Consulta às comunidades cristãs

Para que a prioridade transversal seja assumida amplamente e produza frutos mais rapidamente, o próximo passo pode ser uma Consulta às Comunidades Cristãs e/ou às pessoas que são membros da Igreja Católica sobre dois pontos:

a) concordam ou não com a opção de assumir como prioridade transversal o enfrentamento dos efeitos do aquecimento do Planeta para Libertar a Terra e Salvar a Vida?
b) dentre as seguintes alternativas de ação, qual a que deve ser implementada em primeiro lugar?

A segunda pergunta necessita ser aqui justificada. A escolha deverá ser feita em relação a uma lista de oito ou dez alternativas. Por ora, basta citar algumas: 1) substituir os chuveiros elétricos por aquecedores solares; 2) exigir transportes coletivos de grande tamanho e boa qualidade, tipo metrô, e a construção de ciclovias, diminuindo o uso de carros individuais; 3) dar prioridade à produção agrícola voltada à segurança alimentar, favorecendo a agricultura familiar e a produção realmente sustentável, combatendo todo tipo de monocultura e produção que contaminam o solo e as águas e buscam o lucro acima de tudo; 4) implantar biodigestores em todas as propriedades rurais, diminuindo a contaminação do solo e o uso de energia de hidrelétricas; 5) exigir que a energia solar e a eólica sejam as prioridades nacional na produção de energia; 6) recuperar as fontes de água, replantando matas ciliares; 7) lutar por desmatamento zero; 8) em lugar da "venda de créditos de carbono", exigir mudanças que diminuam rapidamente a emissão de CO2 nos países ricos;

É evidente que essa Consulta exigirá um primeiro material informativo e formativo. E ele deverá ser preparado tendo presente que se trata de uma iniciativa que tem pelo menos dois objetivos: 1) tornar a proposta conhecida e 2) contar com uma primeira participação coletiva na definição do que se deve fazer como primeira ação de mobilização social em todo o país, contando com a participação de todas as comunidades.

3) Implementação da mobilização social em favor da ação que tiver sido indicada pela Consulta.

4) Os passos seguintes terão a ver com o acompanhamento e avaliação da primeira Mobilização, ou com o encaminhamento da segunda ação votada na consulta...

Para que cada um dos passos seja dado com a característica de mobilização, os materiais produzidos deverão alimentar a participação. Por outro lado, será indispensável aprimorar os meios e a capacidade de comunicação, para que haja eficaz intercomunicação. Para isso, um meio básico será a Internet, mas deverão ser valorizadas com atenção também as emissoras e redes de Rádio e de TV. Além disso, contudo, as celebrações comunitárias, especialmente as dos fins-de-semana, poderão dedicar quinze minutos, antes ou depois da celebração religiosa, para veicular notícias do processo de mobilização, gerando uma grande rede direta de comunicação.

4. Conclusão: mudar o coração e animar a prática da cidadania

Para minimizar os efeitos do aquecimento são indispensáveis mudanças profundas no modo de produzir e de consumir, e isto exige transformações estruturas e mudanças no modo de pensar, de sentir, de desejar, de ser. Não haverá força ou poder capaz de impor as mudanças necessárias, a não ser, talvez, as avalanches marítimas e terrestres, os desastres sociais e ecológicos que acontecerão. Vale dizer "talvez", uma vez que, até o momento, parece que a força dos maquiadores de soluções e dos falsos profetas, pagos para enganar, está impedindo que a maioria das pessoas perceba os efeitos do que já foi destruído, os sinais já existentes e que anunciam um futuro muito pior caso toda a humanidade não mude.

A mudança no modo de pensar, de sentir, de ser é algo muito difícil. E é aqui, nesta dimensão, que as religiões, e de modo especial o cristianismo, têm muito a contribuir. É absolutamente necessária uma mudança interior, espiritual, embora seja suficiente; é preciso que esta mudança interior seja força motivacional para a coragem de mudar nas práticas cotidianas, na troca de mentalidade em relação à produção e consumo de bens, na superação do desejo de enriquecimento acumulado, na preferência por práticas coletivas/comunitárias em lugar dos gostos individualistas... Não há mais tempo e lugar para consumismos que desejem imitar os chamados povos desenvolvidos do Norte, pois isso exigiria três ou mais Planetas Terra. Para que todos tenham vida, e vida em abundância, realizando o motivo da presença de Jesus na história humana, é necessário que cada uma e todas as pessoas vivam de forma simples, gastando apenas o estritamente necessário de água e energia, alimentando-se com produtos que venham do trabalho de quem cultiva a terra com cuidado etc.

Por isso, a presente proposta tem como meta maior e permanente esta geração da vontade e da coragem de mudar, que tem como fonte, na vida dos cristãos e no que desejam para toda a humanidade, o amor aos irmãos e irmãs e o cuidado com a Criação em que se realiza o amor a Deus. As comunidades cristãs podem e devem viver esse modo simples e amoroso de ser, sendo testemunhos que surpreendem e atraem outras pessoas, pela força do Espírito, como aconteceu nas primeiras comunidades de seguidores/as de Jesus. De modo particular, podem ser exemplos da alegria dos que têm a coragem de "colocar tudo em comum", saindo das soluções individualistas.

Finalmente, mesmo a prática da cidadania política não é algo fácil. Significa ir à rua, pressionar, exigir que os governantes coloquem em práticas políticas públicas favoráveis às mudanças exigidas pelo aquecimento provocado pela ação humana; e eleger pessoas com esta consciência e com princípios éticos de prática política. Nada justifica que se continue promovendo o tipo de progresso que é o principal causador do aquecimento. É necessário enfrentar o desafio de buscar outro tipo de projeto de desenvolvimento, que seja favorável a todas as pessoas e cuide e recupere as energias da Terra. Também aqui as religiões, e em particular o cristianismo, têm uma missão educativa indispensável, sem outra exigência que assumir a opção pelos pobres. Existe o risco de soluções, aparentemente "científicas e sustentáveis", que, na realidade, reservam os bens ao consumo exacerbado dos que já são muito ricos; os pobres serão ainda mais excluídos. Por isso, o estímulo à responsabilidade da cidadania ativa deve fazer parte da vivência dos valores evangélicos, já que, hoje, esta é uma forma privilegiada de amor ao próximo; um amor que se torna tanto mais eficaz quanto mais coletivo, mais fraterno, quanto menos partidário e mais democraticamente exercido em rede. As comunidades cristãs, como comunidades em que todos e todas se relacionam como irmãos e irmãs, podem e devem ser exemplos e fonte de animação de práticas de cidadania ativa.

* Sociólogo e educador popular, assessor da Caritas Brasileira. Autor, entre outros, do livro Brasil: Oportunidades Perdidas, Ed. Garamond.
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