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Estrategista militar vê 4ª Frota como ameaça
real ao pré-sal
Pensador da Escola
Superior de Guerra e estudioso de estratégias militares, general
Durval Nery defende alterações imediatas nas regras do
petróleo brasileiro, para proteger as jazidas submarinas e frear
a comercialização das áreas a grupos estrangeiros.
Segundo Durval Nery, logo após o Brasil anunciar suas novas jazidas
de petróleo, a força naval americana reativou sua 4ª
Frota, posicionando inclusive um porta-aviões nuclear ao sul
do Atlântico. O general aponta que o interesse claro dos EUA é
espionar o que está sendo feito a respeito do novo óleo
submerso.
O general-de-brigada
da reserva Durval Antunes de Andrade Nery, baiano, 62, é um dos
pensadores da Escola Superior de Guerra (ESG). A instituição
costuma dar norte à linha do pensamento militar brasileiro. Lá,
ele coordena o Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos (Cebres),
órgão que emite análise de temas que os Comandos
e o oficialato consideram relevantes ao cenário nacional. Na
ordem do dia do Cebres, um dos assuntos mais discutidos tem sido a nova
bacia de petróleo descoberta pelo Brasil em sua plataforma oceânica.
O óleo a grandes profundidades, em áreas de pré-sal.
Mesmo assim, para o general, o país precisa tomar providências
urgentes para se resguardar e não perder essa nova riqueza.
Segundo Durval Nery,
o País já mostra um quadro bastante vulnerável
a essa possibilidade. Ele cita as permissões abertas hoje pela
lei brasileira do petróleo ao interesse comercial externo, inclusive
a negociação de campos petrolíferos ainda não
explorados, sem nem passar por um trabalho de pesquisa mais apurado.
Na entrevista, concedida por telefone, de sua casa, no Rio, o coordenador
do Cebres defende que a Lei do Petróleo (nº 9.478, de 6
de agosto de 1997) seja reformulada urgentemente. Ele afirma que alguns
desses campos de pré-sal estão sob áreas mais rasas
do solo submarino, já vendidas a multinacionais petrolíferas,
antes da exploração pelo próprio Brasil. "É
possível que ao retirarem o petróleo comprado, essas empresas
retirem também o que está no pré-sal", afirma.
Quando entra na
análise militar do problema, o general alerta para as movimentações
militares internacionais recentes perto das águas brasileiras.
E aí ele faz questão de lamentar o quadro degradado na
estrutura da Marinha nacional. Segundo Durval Nery, logo após
o Brasil anunciar suas novas jazidas de petróleo, a força
naval americana reativou sua 4ª Frota, posicionando inclusive um
porta-aviões nuclear ao sul do Atlântico. O general aponta
que o interesse claro dos EUA é espionar o que está sendo
feito a respeito do novo óleo submerso. Oficialmente, o governo
americano diz que a IV Frota apenas tenta impedir o uso do mar pelos
narcotraficantes.
Qual o cenário
que se vislumbra hoje com o anúncio dessas jazidas de petróleo
e gás e a atual estrutura de nossa força naval?
General Durval Antunes de Andrade Nery - Essa descoberta na chamada
área de pré-sal é uma das maiores descobertas do
mundo. O Brasil passou a ser um país que, quando começar
a retirada desse óleo, vai dispor de todo o petróleo necessário
para seu desenvolvimento. Acontece que estamos percebendo as discussões
sendo conduzidas para um caminho que não interessa ao Brasil.
A retirada desse petróleo, que pela Constituição
Federal pertence ao Brasil, está na plataforma continental (área
dentro das águas jurisdicionais brasileiras), nas 200 milhas
náuticas e um pouco mais. A primeira preocupação
é que a potência hegemônica (EUA), que não
dispõe de petróleo, que só tem petróleo
para cinco anos, o seu presidente (George Bush), no dia seguinte à
confirmação dessa descoberta, declarou que não
reconhece a soberania brasileira sobre as 200 milhas náuticas.
Imediatamente criou a 4ª Frota Naval, ou seja, reuniu navios e
um porta-aviões nuclear e mandou para o Atlântico. A resposta
está aí. Países hegemônicos que precisam
de petróleo para manter seu padrão de vida decidem atacar
outros que possuem petróleo para tomá-lo. Foi o que aconteceu
no Iraque, Afeganistão, e agora na Geórgia, com o petróleo
do Mar Cáspio. Tudo para tomar o petróleo de quem tem.
Nós, brasileiros, temos de nos preocupar, tendo um povo que continua
vivendo na miséria, as populações do Interior passando
necessidade, quando dispomos agora de uma quantidade que serve para
nosso desenvolvimento. Não podemos deixar que outro país
venha e diga "é meu". Como impedir isso? Da mesma maneira
que um país vem com a sua força, as suas naves, o Brasil
tem que ter sua defesa como no passado. Tem que ter indústria
bélica, o Exército, a Força Aérea e a Marinha
compatíveis para a Defesa da sua soberania. Esse é o primeiro
pensamento. Segundo, não é vendendo petróleo. Dizer
aos estrangeiros que vende hoje o que está lá embaixo.
É o que está acontecendo. Temos uma lei em vigor, de 1997,
única no mundo. Diz assim: quem comprar a reserva de petróleo
passa a ser dono do petróleo que está lá embaixo.
E o que já
foi vendido dessas reservas?
Durval - Já está no décimo leilão de petróleo
desde que foi criada a lei. Estão sendo vendidas jazidas de petróleo
em toda a plataforma continental (região oceânica) brasileira.
São todas
jazidas brutas em áreas de pré-sal?
Durval - Algumas jazidas foram vendidas na área do pré-sal.
De seis a oito, por aí. Mas descobriram petróleo abaixo
daquelas que foram vendidas. Várias empresas compraram essas
reservas acima do pré-sal. Ora, quem garante que ao enfiar a
sonda, ela não estará retirando petróleo do pré-sal?
Então parece que já vendemos a nossa riqueza do pré-sal.
Imagine se você enfia um canudo na água de coco. Se você
puxa mais rápido, leva toda a água. É o que está
acontecendo. Parece que já venderam sete ou oito: a Tupi, Iara,
a Carioca, Guará, Caramba, Bem-te-vi, Parati (todas no mar em
frente ao Rio de Janeiro). Essas áreas foram vendidas para empresas
como a British Gas (BG), Petrogal (de Portugal), Galp (também
portuguesa), Repsol (espanhola), Exxon Mobil (norte-americana). Elas
já compraram reservas em cima do pré-sal. É possível
que, ao retirarem o petróleo comprado, retirem também
o que está no pré-sal.
E a 4ª Frota
americana? Ela está navegando? Como ela tem agido?
Durval - Ela foi criada, segundo os americanos, para proteger o Caribe
e Atlântico Sul. Ela poderia intervir, tem capacidade de demolição,
pode antecipar as ações na área, fazer inspeções
de praia, vigilância de rios e patrulhamento de barcos comerciais.
O Brasil precisa dessa proteção do governo americano?
O senhor está
dizendo que o papel da 4ª Frota é unicamente o de espionagem?
Durval - Muito mais do que isso. Por que criar uma frota numa região
em paz se não temos poderio nuclear nos países da América
do Sul? Não há conflitos nem ameaças reais nesta
região. Se eles vão garantir a livre navegação
dos barcos comerciais que levam nossos produtos, eles podem também
impedir o livre comércio brasileiro. Por que eles nomearam comandante
dessa frota o contra-almirante Joseph Kernan? Se a frota é humanitária,
teriam colocado à frente um comandante de navio. Ele foi instrutor
do Seal (grupo de elite da Marinha dos EUA), que são os homens-rãs,
treinados para a guerra, com capacidade de destruição.
São aqueles homens que desembarcam na frente, destroem tudo que
vêem na praia. Este homem é um especialista nesta atividade.
Por que logo ele foi nomeado comandante aqui?
Como o Brasil tem
reagido e pode se precaver dessa situação considerada
temerária?
Durval - Temos que ter um planejamento como era no passado. Tínhamos
a quinta maior indústria bélica do mundo, hoje não
temos nada. Desde Getúlio Vargas, Juscelino, Jânio, o país
se desenvolveu, criou uma indústria. Hoje não temos nada.
Não temos capacidade de impedir que haja uma sabotagem nas nossas
plataformas de petróleo. Porque a única maneira da Marinha
dar segurança nas plataformas ou na nossa costa seria com um
submarino nuclear.
A Marinha hoje não
tem condições de dar essa proteção sistemática?
Durval - Não, porque está totalmente sucateada. Tem os
navios praticamente parados e o submarino nuclear, o governo suspendeu
a construção desde a gestão passada, cortando o
dinheiro necessário para prosseguir no projeto. Está parado
há mais de oito anos. Um outro problema do pré-sal: não
temos que vender o petróleo. Temos que tirá-lo e usá-lo
no nosso desenvolvimento. Estamos ouvindo na imprensa a idéia
de vender e usar o dinheiro para a educação, a saúde
etc. Esse petróleo tem que ser retirado, transformado em combustível
para que o Brasil utilize no seu desenvolvimento. Mas se pensam em usar
o dinheiro do petróleo para a educação, saúde
ou para reativar as forças armadas, é sinal que já
estão pensando em vender o petróleo. O que está
acontecendo hoje com essa lei do petróleo, de 1997, que regula
a venda? Essa lei em vigor, que permite o leilão do petróleo,
diz que a empresa que comprar o petróleo passa a ser dona dele.
Venderá para o Brasil se quiser. Se o governo brasileiro pensa
em vender o petróleo do pré-sal, ele não será
mais nosso.
O que tem sido discutido
no Centro de Estudos Estratégicos sobre requalificar a frota
naval brasileira e a defesa da Amazônia Azul?
Durval - Estrategicamente, é uma prioridade. Da mesma maneira
que é a educação e a saúde, é o reaparelhamento
das forças armadas. Existe um plano estratégico de defesa
que o governo anuncia para 7 de setembro próximo. O que nos preocupa
é que nesse plano, que pouca coisa tomamos conhecimento, temos
um artigo do ministro Nelson Jobim, publicado no dia 13 de agosto, onde
ele fala as principais linhas da proposta. Manutenção
da estrutura, deslocamento de contingente das forças armadas
para outras regiões, investir na mobilidade e no reaparelhamento,
mas nos preocupa deslocar as tropas das capitais para a Amazônia.
Isso é um risco muito grande. Em nenhum momento na exposição
do ministro Jobim, verificamos a preocupação de aumentar
os efetivos das Forças Armadas nas áreas necessitadas.
Por exemplo, povoar a Amazônia, botar o Exército para melhorar
as condições de defesa, mas não tirar das grandes
capitais. Vai desguarnecer o coração do Brasil.
Não seria
só um reposicionamento de parte dela?
Durval - Qualquer homem que tirar daqui fará falta. Existe um
planejamento estratégico do Exército, do início
da década de 80, chama "Força-Tarefa 1990".
Nesse planejamento, o efetivo do Exército no ano 2008 estaria
próximo de 600 mil homens, necessário para manter a nossa
soberania. E nosso efetivo hoje está reduzido beirando os 100
mil, só. Imagine tirar daqui do Rio, São Paulo, Belo Horizonte,
Brasília, fazer a defesa no caso de um ataque, como está
acontecendo na Geórgia. Por que lá? Existe um oleoduto
que os Estados Unidos construíram para levar o petróleo
do mar Cáspio através da Geórgia pela Turquia,
para sair no Mar Negro. Botaram uma grande empresa mercenária,
a Blackwater, criada pelo governo americano num planejamento da Hallibourton.
É a maior empresa de mercenários do mundo, tem 128 mil
homens no Iraque, 26 mil na Colômbia.
No que especificamente
essa empresa trabalha?
Durval - Essa empresa dá segurança para os empreendimentos
das grandes empresas mundiais. Por exemplo, as empresas de petróleo.
No Iraque, matam, destroem, trucidam os civis iraquianos pelo interesse
das empresas que foram ao Iraque roubar o petróleo iraquiano.
No Iraque, o contrato da Blackwater já vai a 6 bilhões
de dólares. Não há dúvida que esses homens
virão para cá, caso o Brasil continue vendendo. O que
é preciso fazer? Mudar a lei do petróleo, porque é
o único país do mundo que terceiriza a exploração
de um poço de petróleo, mas a empresa contratada passa
a ser dona do petróleo e vende para nós se quiser. Por
exemplo, uma empresa argentina que fabrica placas de automóveis
comprou uma jazida num leilão aqui na Bacia de Santos.
Fábrica de
quê?
Durval - De placas de automóveis. Não tem experiência
nenhuma no ramo de petróleo, mas comprou. Pelo preço de
um apartamento em Copacabana, mais ou menos. Um mês depois vendeu
ganhando uma fortuna. Só o Brasil faz isso.
Então, a
principal medida deve ser a mudança na legislação?
Durval - Na legislação do petróleo, que compete
a nossos deputados e senadores. Nós precisamos desse petróleo,
que isso seja feito honestamente. Precisamos investir. Com esse petróleo,
o Brasil vai se desenvolver. Deve tocar para frente o projeto do biodiesel,
do etanol.
Como o senhor acha
que deve ser acelerado o reaparelhamento militar?
Durval - Uma parceria com a Petrobras pode ser uma solução,
porque com o petróleo vamos nos desenvolver. Vamos ter gasolina
e óleo diesel mais baratos. Mas se vender, com essa lei atual,
não. Qualquer país do mundo, Venezuela, Arábia
Saudita, Irã, quando contrata uma empresa para explorar um poço,
no máximo essa empresa ficará com 20% do que encontrar.
O petróleo é do país. O segredo é mudar
a lei do petróleo.
Fonte: O Povo
www.vermelho.org.br
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